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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

“Big Brother Mídia” (BBM) x crime: informação relevante, ou puro sensacionalismo?

O seqüestro de Santo André (SP) que teve um final trágico, com a morte da estudante, Eloá Cristina Pimental, 15 anos (assassinada pelo ex-namorado, Lindemberg Alves, 22 anos) trouxe à tona uma dúvida que eu tenho com relação à cobertura jornalística em casos semelhantes. Até que ponto é válido ter a imprensa (TV, internet, rádio e jornal impresso) cobrindo o crime 24 horas por dia com diversas câmeras, numa espécie de "Big Brother"?

Mais especificamente no caso do seqüestro em Santo André, até que ponto foi certo e ético, da parte de alguns jornalistas, “atravessar” os negociadores profissionais da polícia e entrar em contato por telefone com o criminoso? O que isso acrescenta na informação, o que isso traz de benefício para o desfecho pacífico do caso?

Sem querer analisar as estratégias de negociação dos policiais do Gate, entendo que a imprensa que participou da cobertura desse caso, deveria ter pensado que, da mesma forma que milhões de pessoas no Brasil acompanharam as imagens do caso pela tevê, o próprio Lindemberg pode ter sido “informado” de tudo que estava acontecendo do lado de fora do apartamento.

Lindemberg pode ter obtido com uma “ajudinha” da mídia, informações como, uma noção da quantidade de policiais que estavam no caso, onde esses agentes estavam posicionados além de outras estratégias que deveriam ser sigilosas, principalmente para o criminoso e também para o êxito da operação.

Posso estar enganado, mas enxergo esses casos, como uma tentativa inconseqüente de brigar por audiência. Não interessa se isso pode atrapalhar as negociações, se pode expor a família dos envolvidos no caso, nem se a vida de inocentes pode estar em risco.

Um dia após o final trágico do seqüestro em Santo André, o coronel, Eduardo José Félix, que é comandante da tropa de choque em São Paulo, afirmou durante uma coletiva de imprensa, que a polícia não pensou na possibilidade de utilizar os atiradores de elite para matar o seqüestrador pois sabia que a ação receberia críticas por parte da imprensa.

“Se tivéssemos atirado no Lindemberg, os senhores (jornalistas) fatalmente estariam hoje aqui nos criticando. Perguntariam por que atiramos num garoto de 22 anos em crise com a ex-namorada e que estava fazendo algo que poderia se arrepender para o resto da vida”, afirmou.

Longe de querer fazer qualquer tipo de censura, acredito apenas, que a imprensa deve se lembrar da responsabilidade que tem de repassar as informações à sociedade, e de que forma isso deve acontecer. Uma coisa é divulgar um crime, outra é ficar com várias câmeras, 24 horas por dia mostrando tudo o que está acontecendo, correndo o risco de prejudicar o trabalho da polícia.

sábado, 18 de outubro de 2008

Cem horas de um seqüestro que mobilizou o Brasil

Durante quatro dias, o Brasil assistiu pela TV o drama da jovem, Eloá Cristina Pimental, 15 anos, que passou cerca de 100 horas refém do ex-namorado, Lindemberg Alves, 22 anos, em seu apartamento no bairro de Santo André (SP). O crime passional foi motivado pelo fato da adolescente ter se recusado a reatar o namoro.

Após inúmeras tentativas de negociação entre policiais do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) e Lindemberg, o seqüestro teve um final trágico. Depois de ouvir um suposto tiro no início da noite dessa sexta-feira, 17, os agentes do Gate explodiram a porta do apartamento e invadiram o local. Ao que tudo indica, ao ver os policiais entrando, Lindemberg disparou cinco tiros. Dois atingiram a ex-namorada, um na cabeça outra na altura do quadril, um atingiu a amiga da jovem, Nayara Silva, 15 anos, perfurando a mão e a boca e dois foram na direção dos policiais.

O final trágico poderia ter sido evitado, pelo menos com relação à jovem Nayara e sua família. A adolescente que já havia sido libertada no segundo dia do seqüestro foi chamada para “ajudar nas negociações para acalmar” Lindemberg.

Não sou especialista em segurança, mas nunca vi nada parecido. Onde já se viu trazer uma pessoa que foi refém, para ajudar nas negociações e ainda por cima não tomar nenhuma precaução permitindo que a pessoa retorne ao local do crime e volte a ser refém novamente? Repito, nunca vi nenhuma atitude tão amadora e inconseqüente dessas, nem em filme nem em novela.

Um dia após o desfecho trágico do seqüestro, o coronel, Eduardo José Félix, que é comandante da tropa de choque em São Paulo, tentou tirar a responsabilidade da polícia no retorno da jovem Nayara ao local do crime, durante uma coletiva de imprensa. Segundo Félix, a adolescente teria retornado ao local com “autorização da mãe” para ajudar nas negociações e sua presença seria exigência do seqüestrador.

“O combinado era que ela fosse até o primeiro andar e tentasse convencer o Lindemberg a se render. Mas ela resolveu subir até o apartamento e não pudemos fazer nada”, alegou o coronel.

Questionado pelos jornalistas se a polícia não pensou que a vida da jovem estaria em risco, o coronel Félix, afirmou que a situação estava “sob-controle”.

“Nós fizemos de tudo para preservar a vida dos três. Eu tenho três filhos e encarei aquela ocorrência como se um deles estivesse naquela situação. Eu colocaria o meu filho no lugar da Nayara”, declarou.

O que considero, a única trapalhada da polícia nas negociações poderia ter custado à vida da estudante Nayara. Por sorte, a adolescente, que passou por uma cirurgia e permanece internada no hospital, não corre risco de morte. Nayara provou ser uma jovem corajosa e foi heroína por ter ficado ao lado da amiga que infelizmente morreu. Mas em minha opinião, isso não tira a culpa da polícia em ter permitido que a estudante retornasse ao local do crime.

Que esse caso sirva de lição para que os agentes do Gate revejam suas ações e estratégias de negociação em outros casos parecidos. E que, desta forma, a vida de pessoas inocentes não seja colocada em risco novamente.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Dizem que ela existe pra ajudar, dizem que ela existe pra proteger...


“Servir e proteger”, esse é o lema da Polícia Militar (PM). Pelo menos, deveria ser. Não foi o que vimos no último domingo, 6 de julho, no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ). Ao participar de uma perseguição à bandidos, uma viatura da PMRJ cometeu o que foi classificado pelo secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, como “ação desastrosa”.

Após perceber que um carro passava em alta velocidade e logo atrás vinha a viatura de polícia, a dona de casa, Alessandra Amorim Soares, fez o que qualquer pessoa é orientada, e até obrigada a fazer. Encostou o seu carro para não atrapalhar a perseguição. Porém, o que seria apenas uma volta “tranqüila” à casa, após uma festinha infantil com os dois filhos de 3 anos e 9 meses se transformou num pesadelo.

Ao parar, Alessandra teve seu carro atingido por vários disparos, segundo a perícia, pelo menos 15. Sem entender o que acontecia, e numa atitude desesperada de tentar alertar os policias que haviam crianças no carro, Alessandra abriu a janela e jogou a bolsa da criança para fora do automóvel. Porém, nada disso adiantou e o pior já havia acontecido.

João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, foi atingido por um tiro na cabeça e horas depois teve, já no hospital, a morte cerebral constatada. Ao saber do ocorrido, o pai da criança, Paulo Roberto Barbosa Soares se desesperou. “Eu sou taxista, saio aos domingos para juntar um dinheiro para fazer a festa do meu filho. Eu nunca ia imaginar que eles iam executar minha família. Um carro preto passou pela minha mulher a 'mil' quilômetros por hora, ela encostou o carro como qualquer um faria para dar a vez à policia, (mas) eles não seguiram o carro, eles pararam, fecharam a minha espora e metralharam o carro, com uma mulher e duas crianças”, desabafou, na porta do hospital.

Mais uma vítima, mais um João

Há pouco mais de um ano, outra criança, outro João, o João Hélio, de 6 anos, foi brutalmente assassinado ao ser arrastado por bandidos após um assalto também no Rio de Janeiro. A diferença é que naquele caso, a violência veio de quem anda contra as leis e não de quem deveria servir e proteger.

Os policiais envolvidos no caso do João Roberto Soares estão presos e, segundo o governador do Rio, Sérgio Cabral, serão expulsos da corporação e julgados pelo crime. Mas será que só isso é suficiente? O curso de formação de um policial no estado do Rio, dura três meses. Será que esse tempo é adequando, será que o treinamento está sendo feito da forma correta? Porque os policiais chegaram atirando ao invés de abordar da forma correta e segura?

Muitas perguntas e uma triste realidade. O inocente menino João Roberto, não foi a primeira vítima dessa absurda violência e infelizmente não será a última.